13 março 2008




Pensando bem, nao ha separacao tao eloquente do mundo virtual com o real. Conhecemos tantas pessoas que parece que ja fazem parte da nossa vida ha tanto tempo! Nao e assim?
Tenho o maior carinho e amor por voces, meus leitores queridos.

Ultimamente, alem da terapia, dos exercicios, e de tanta coisa que tenho que fazer, nao tenho tido muito tempo para minha familia, para mim, nem ao menos para comentar meus amigos blogueiros, que gosto tanto!

Vou dar uma paradinha no meu Blog, nao sei por quanto tempo.

Estou precisando de um tempo para mim.

E a voces, que sempre vem aqui me visitar, deixo o meu beijo, o meu abraco carinhoso. E agradeco do fundo do coracao, por partilharem de minha vida.


Um beijo


Mary Fioratti




VOLTANDO AO TRABALHO



Na verdade nao pensei que seria tao rapido.
Mas estava eu aqui em casa e pensei: "vou dirigir ate o Supermercado". E fui.
Que sensacao mais gostosa temos quando nao fazemos algo (tao simples!) ha algum tempo, e de repente comecamos a fazer.
Simples coisas como: entrar no carro, dar a partida...movimentar.
Fui no Supermercado e foi dificil. Doia muito a cada passo. E pensei: "Que doa! vou andar".
Encontrei um amigo meu que ha muito nao via. Conversamos. Ele me convidou para tomar um cafe. Fomos tomar um cafe, e aquele meu dia ja nao me pareceu tao comum. Os amigos sempre nos mostram algo diferente.
Voltei para casa, e encontrei um email da minha chefe: "Maria, voce ja pode trabalhar?"
Nao pensei duas vezes. E respondi: "SIM!".
Ontem foi meu primeiro dia, depois da operacao. Adorei ter ido! Me fez sentir tao bem.
Afinal, dor por dor, que continue doendo e eu trabalhando.
O medico que me operou (ortopedista) disse que uma das mais dolorosas cirurgias é a do joelho.
O dificil mesmo é dormir. Nao ha posicao que doa menos.
Enfim, estou indo...na metade do caminho, muito ainda a seguir. Mas ja fiquei contente de ter dado esse passo de ter ido trabalhar.
Aos poucos tudo vai e encaixando.
O que mais me alivia, eh que deixei por tanto tempo essa cirurgia por fazer. E agora somente pensar que "esta feita", ja é um alivio.
Espero vir aqui futuramente falar de outra coisa sem ser: JOELHO!

Beijos a todos.
Obrigada por cada comentario, e por estarem comigo.

Mary Fioratti

09 março 2008

R E A P R E E N D E N D O









Toda a vez que passamos por um processo cirurgico, existe a fase do "reaprender", a fase de adaptacao para tudo.
No comeco tudo parece tao dificil (e impossivel). Cheguei a ter saudade do meu "joelho velho"..(risos).
E preciso ter muita determinacao, muita forca, muita coragem, muito otimismo, muita fe, e olhar sempre em frente.
Sempre fui uma pessoa muito independente. Em tudo. E antes dessa cirurgia, quando pensava que iria depender de alguem (meu marido), ou fisioterapeutas, ou sei la quem fosse, eu me sentia muito ansiosa.
No entanto, temos que entender que as simples paradas em nossa vida, tem uma razao de ser. Deus nos ensina tanta coisa atraves de fatos simples do dia a dia.
E exercita nossa paciencia tantas vezes sem que ao menos percebamos.

Lidando com meus velhinhos, tive tantas vezes diante de meus olhos situacoes como essa que estou passando: dificuldade de levantar da cama sozinha, andar com dificuldade, mesmo tomar banho passa a ser uma aventura.
Mas nao existe melhor sensacao quando vemos que conseguimos fazer (mesmo com dificuldade).

Existem sensacoes que temos todos os dias em nossa vida normal, e nao percebemos o quanto elas sao vitais e importantes:

1) A boa sensacao depois de um banho, com uma roupa limpa, um cheiro de sabonete, um cabelo lavado, um creme no corpo.
2) A sensacao confortante de poder deitar sozinha, cobrir-se sozinha, e dormir o sono dos justos...
3) A liberdade de "ir e vir", sair a hora que temos vontade, sem que dependamos de ninguem.
4) Comer uma boa refeicao. Tomar um cafe quentinho.

No entanto esse tempo tem me feito pensar e ver quantas bencaos tenho em minha vida.



No comeco, eu tinha que colocar minha perna deste jeito no sofa, pois nao tinha forca suficiente para levanta-la:


Aprender a vestir a meia atraves de uma protese de plastico. Veste-se a meia nela, e depois, na gente.




Aprender a pegar as coisas do chao com um "pegadorzinho" especial.


Coisas tao simples que fazemos sem pensar, de um modo automatico, passam a ser monitoradas, pensadas.
Hoje o meu fisioterapeuta pediu que eu andasse. Andei e ele disse: "Voce esta puxando a perna. Tem que andar sem puxar a perna" "Dobre o joelho". "Fique ereta".

Tudo eu alcanco sorrindo. Jamais deixo de sorrir, mesmo na minha maior dor.

Uma atitude positiva, sempre nos leva a uma acao positiva. A um caminho positivo.

Muitas vezes a dor desanima. Hoje esta sendo essa dor na minha perna. Mas ha tantas outras dores que no dia a dia enfrentamos.

Dores da alma.
Dores da existencia.

E uma coisa eu aprendi. TUDO PASSA. E os momentos vao se tornando "passado" tao rapidamente que quando nos damos conta, eles estao la atras. Bem longe.
E entao olhamos para frente. E o caminho ainda eh bonito e cheio de flores.



E ha algo que nos ajuda sobremaneira a passar por todas as dificuldades de nossa vida: sao os nossos AMIGOS.
Eles nos mostram sempre um lado bonito, nos impulsionam, e suas palavras ternas sao como maos estendidas que nos ajudam na caminhada.

Hoje recebi a visita de um deles. Dena. Essa menina cuida do meu cabelo desde que cheguei em Cincinnati. E tornou-se uma grande amiga.



E obrigada a todos voces que vem aqui me visitar, deixando sempre palavras de carinho e amizade. Logo que puder, eu volto, colocando meu dia a dia. E ainda quero continuar com meus velhinhos.


Mary Fioratti







29 fevereiro 2008





ESTOU DE VOLTA



Aqui estou eu, de volta a vida.
Impressionante com o tempo passa depressa!
Estou nesse momento sentada na minha sala de TV, um escurinho gostoso, TV ligada, um abajour de canto, a figura de meu marido sentado no sofa, e eu aqui ao lado, na "cadeira do papai", que hoje é a "cadeira da mamae"...(risos)

Felizmente minha cirurgia foi um sucesso, como eu sabia interiormente que seria. Isso porque eu tenho uma grande forca interior, e sempre pensamentos positivos. Isso faz uma grande diferenca!

Logicamente que passa em nossa cabeca a possibilidade de algo dar errado. E na verdade o unico medo que eu tinha seria se algo acontecesse comigo e eu deixasse minha filha.
Nao é somente uma cirurgia que e arriscado, mas a vida em si. Pode acontecer a qualquer minuto, em qualquer hora, a qualquer dia.

Tudo foi muito perfeito! Ja estou andando perfeitamente, (com andador e muletas)e com tudo em casa adaptado para essas duas semanas iniciais.

Estar num Hospital nos faz repensar muito na vida. Agradeci cada um que entrou em meu quarto, com uma palavra de conforto, ou mesmo cumprindo sua missao de um modo mais profissional.

Deitada naquela sala de cirurgia, eu estava calma e certa de que tudo sairia perfeito. E assim foi!

Obrigada por todos que estiveram comigo em pensamento.


Um beijo carinhoso

Mary Fioratti

25 fevereiro 2008



MEUS QUERIDOS AMIGOS

Gostaria de avisa-los que a partir de hoje estarei ausente por algumas semanas. Alias, ja nem tenho publicado, pois estou numa correria!
Amanha vou me submeter a uma cirurgia do joelho, (knee replacement) e vou estar fora algumas semanas.

Deixo aqui meu abraco apertado a cada um dos meus amigos.
Peco desculpas aos meus leitores por ultimamente nao estar postando, e tambem aos meus amigos blogueiros por nao estar visitando voces.
Quando voltar, se Deus quiser, farei uma visita a cada um.

Um beijo carinhoso


Mary Fioratti

08 fevereiro 2008



CAMINHANDO COM MEUS VELHINHOS




Um dia chegaremos lá. E eu espero estar com uma cabeça boa, sorrindo para a vida, e para todos em minha volta.
Não quero tristezas, nem recordaçoes que nao valham a pena. Quero olhar para trás sem arrependimentos, e olhar tudo de bom que eu fiz.
Trabalhar com esses velhinhos tem me feito tão bem! Quando entro naquele lugar, me sinto movida pelo meu coração. Algo aqui dentro de mim se move. Muda. Recicla.
Meus olhos se deitam em tudo de uma forma completamente diferente. Nao sei explicar. Mas um grande sentimento se apossa de meu coração. Passo a sentir mais, de uma forma absoluta.

Ontem foi a festinha de aniversario do mes. Gosto tanto desse dia, porque a maioria dos velhinhos que nao saem do quarto, vao para o restaurante. Vem um pianista tocar musicas, e de repente todos viram um pouco crianças... a gente nota o pé batendo no chão, e o olhar sonhador, com alguma lembrança do passado.
Comem bolo como crianças, seguram o copo de suco como minha filha segurava quando era pequena. Como se o mundo inteiro se resumisse naquele pedaço de bolo, e aquele suco. Alguns dormem na mesa, pelos remédios, ou mesmo pelo cansaço. Mas querem participar.
Nessa foto, voces podem ver mais ou menos o ambiente.



Este homem de camisa branca e bonézinho, é aquele cego que falei dele no meu post há tempos atrás. Impressionante como este homem dá uma injeção de otimismo. Sempre sorrindo, de bom humor, de bem com a vida, como se enxergasse tudo colorido. Nas festas ele canta, ri, bate palmas. Ao lado dele, de camisa xadrez, o companheiro dele, Mike, jantam sempre juntos, fumam juntos lá fora depois do jantar.
Adoro servir a mesa dele! Tenho sempre que dizer a ele o que tem no prato, e independente do que seja, ele sempre acha bom, e agradece. Mesmo sem enxergar o mundo, este homem consegue ser grato.

Mas uma velhinha que tenho verdadeira paixão é a Laura. Tem algo naquela velhinha que nao sei explicar, mas me puxa para ela. Sempre arrumadinha, com o chapéu combinando com a roupa. E tem uma voz muito dela. Um jeito de se expressar muito especial.
Eu chego e ela diz: "Hi!!!!! What do you know?" Uma expressao que os americanos usam para dizer: "Ola! conte as novidades!".
Sento com ela em sua cama, e ela conversa. Ela escuta pouquissimo, levo meu caderno, escrevo, e ela responde. E assim fico conversando em seu quarto. Dessa ultima vez ela contou suas viagens com seu marido, e falou das borboletas. A Laura adora borboletas. Tem um quadro com uma borboleta colorida, em cima de sua cama. Perguntei porque. Ela disse que gostava do colorido delas, e do modo que elas voavam livres. Falou-me das borboletas no campo. E eu parecia enxergar a beleza da descrição.

Quando sirvo o jantar no restaurante, ela me pede café a toda hora. Ela adora! Entao dessa ultima vez, tirei sua foto tomando café usando o chapéuzinho novo que ela colocou. Vejam que gracinha:



Essa e a foto anterior dela:




Ela sempre me conta as coisas de um modo detalhado, muito proprio dela. Tenho um carinho imenso por essa velhinha.

Em cada lugar que vou ali, tem uma historia.

Comove-me sobremaneira um homem que vem todas as tardes sentar com sua mulher para jantar. Ela teve derrame. Ele senta pacienciosamente com ela, e dá a comida na boca. Quando coloco a comida na mesa, ele diz para ela: "Hummm que delicia, veja!". Ela olha como se seu olhar nao estivesse ali.... e ele sempre com aquela paciencia. Mostrando-se alegre. Mas muitas vezes eu capto seu olhar distante na mesa, olhando por um momento para o vazio.
Um dia desses eu vi a fotografia deles quando jovens. Está pendurada no corredor onde tem os quartos. Um casal bonito, alegre, sorrindo abraçados.
Então por um instante a gente tem um rapido sentido da vida. Das mudanças.

Continuo visitando tambem o Norman, lembram dele?



Ele sempre me conta historias interessantes de vida. Outro dia estava contando o quanto gostava de cozinhar para os filhos. E queria muito que eles comessem espinafre. Entao inventava receitas diferentes. Fala de receitas, de guerra, da familia, dos netos, dos filhos. Tem uma memoria invejavel! Muito lucido, nao se esquece de pequenos detalhes. Gosta de falar da Guerra em que esteve. Dos amigos que perdeu. Das medalhas que ganhou. Quando saio de seu quarto, levo sempre comigo papeis que ele me da.
Esta e a sua foto quando lutou na 2a. Guerra Mundial.




Visito tambem aquela mulher que perdeu o marido com derrame cerebral. A semana passada eu havia ido visitá-la e encontrei sua cama arrumadinha, e ninguem no quarto. Levei um susto, achando que havia acontecido algo com ela. Mas ela havia ido ao funeral de sua irma que havia morrido. Nessa semana entao fui visitá-la e me preparei interiormente para ouvi-la, e dizer umas palavras consoladoras. No entanto ela estava bem. Vejo que Deus nos dá uma compreensao acima dos limites nessa idade. Tudo parece uma decorrencia normal da vida (e é !) mas que é aceita de um modo mais facil e simples do que quando somos jovens.

Essa é a foto dela, que coloquei no meu post anterior, no dia do seu casamento:



Eu me emociono com a ingenuidade dela, quando me conta que ela o conheceu com 16 anos, foi seu primeiro e unico namorado. E ela descreve quando o viu pela primeira vez, ela estava numa estação de trem, e que ele veio falar com ela. Seus olhos sempre brilham com essa lembrança, e ela sempre repete essa historia como se fosse a primeira vez que estivesse me contando. E o engraçado é que toda vez que eu a escuto, parece mesmo a primeira vez, pelo brilho de seus olhos, pela empolgação meiga de suas palavras.

Sinto-me util. Sinto-me necessaria naquele mundo onde muitos estacionaram. E eu me sinto me movendo, e de uma certa forma, trazendo alegria a eles. Brinco muito. Sorrio muito. Exercito minha paciencia. E sempre agradeço por Deus ter me colocado naquele lugar e me fazer enxergar coisas que nunca enxerguei.


Mary Fioratti

03 fevereiro 2008



(cliquem na foto e me vejam "quase" pessoalmente - risos)


NO AMOR O TEMPO NAO PASSA




Faz uma semana atrás tive uma surpresa feliz: encontrar um pouco do meu passado.
Nos anos 70, trabalhei na Johnson & Johnson no Planejamento de Produçao. E la encontrei uma turminha simplesmente maravilhosa!
Na epoca, eu era secretaria do Gerente do Departamento, e esse pessoal (encontramos 10 agora) foi uma epoca maravilhosa da nossas vidas.
Gerente Hector, Pessoal: Rinaldo, Zito, Nucélio, Alencar, Gilmar, Mário, Etel,João Bernardo, Ramon.
A responsavel pelo encontro de todos foi a Etel. Ela encontrou um deles por acaso, e a partir desse encontro, aconteceu uma verdadeira revoluçao! Uma enxurrada de emails, o que gerou um Grupo no Yahoo que foi aberto pelo Rinaldo.
Tao lindo ver as fotos dos filhos (que vimos pequenos, outros nem vimos!), todos bonitos, formados, realizados. Todos casados e felizes.
Sentimos uma emoçao tao grande! E os emails eram relembrando fatos, aqui e ali, e rindo muito.

Alguns dos fatos lembrados:
1)Emendavam os clips da caixinha da gente. Quando tiravamos um, vinha aquele cordao!
2)Punham esparadrapo no pino do meu telefone. Eu atendia, e o telefone ainda tocava.
3)Embrulhavam a ponta dos nossos lapis com durex...
4)Punham sal de fruta no lugar do açucar (no lado do cafe)...
5)Faziam levitacao no banheiro imitando o Uri Gueller (risos).

E muitas, muitas outras que eles aprontavam.
E no meio disso tudo, saia um excelente trabalho, Gerenciado pelo Hector. Uma familia feliz, unida, com sentimentos muito verdadeiros.
Muito nos foi ensinado por nosso querido chefe, que hoje, compartilha dos emails junto com a gente, e se sente tao feliz como nos sentimos!

Foram anos de alegria, de amizade, carinho, amor, entendimento. Um tempo maravilhoso, que agora reencontramos. Cada um com sua familia, com sua vida, mandando fotografias de filhos e ate de netos!

Vou ainda publicar uma montagem de fotos de todos eles. Hoje eu apenas gostaria de deixar aqui uma poesia que fiz com o sentimento desse encontro.



REENCONTRO



Como é bom o reencontro
tem gosto de chuva



cheiro de terra



Surge atraves do tempo
as essencias inesqueciveis



risos, abracos, conversas
que foram desenhados no passado



mas se projetaram no presente
formando um edificio de amor


tudo pode nos ser tirado nessa vida
mas as lembranças
essas ficam para sempre


em um retrato num canto da sala
ou um quadro na parede
uma musica cantada


um som perdido no espaco
uma alegria ou dor compartilhada
no reencontro
as almas se abraçam


como nunca tivessem se separado
o amor floresce



e sentimentos como esses
sao simplesmente inexplicáveis




Meus amigos, recebam essa poesia como um sumo de mim. De minhas emocoes e de meus sentimentos. E que nosso amigos, Luiz Tadeu e Luiz Gonzaga possam le-la, aonde estao!

Aguardo o encontro, que com certeza acontecerá quando eu for ao Brasil este ano (mesmo voce nao querendo, Mário - risos). E quero abraçar cada um de voces!

®Mary Fioratti (Maria Inês)

E PARA VOCES UMA MUSICA DAQUELE TEMPO: "CHERRY RED" COM BEE GEES

29 janeiro 2008



Minha Querida Vovó Aracy


Lembro-me bem de seu rosto. Uma pele alva, aquele sorriso tão meigo.
Minha avó era bem alta, mas era frágil e feminina. Lembro dela velhinha com sua cabecinha branca, e uma coisa
que se fechar os olhos eu sinto, é a maciez de sua mão. Mãos compridas, finas, com pele de criança.
Sempre eu pintava suas unhas com um esmalte chamado “Rosa-Rei”. Sentava, ajoelhada, tomando suas mãos entre as minhas e ela ficava conversando e contando histórias.
Ela era altiva, embora tivesse uma meiguice não só em seu olhar, como em seu rosto.

Ela me dava conselhos de “não andar atrás dos rapazes”, de “ser bem difícil, porque era assim que eles gostavam”.

Olhava para mim dizendo que quando ela assistia aquele seriado da “Freirinha Voadora” sempre lembrava
de mim (dizia que eu era a cara da Sally Field).


O que eu gostava na vovó é que ela estava contando um caso e de repente comecava a rir que não parava mais,
e tinha uma risada gostosa mas bem baixinha.

Era muito alta, mas movia-se com a graça e feminilidade. Era delicada nos gestos.
Sempre muito cheirosa, adorava talcos, perfumes. Lembro que quando a visitava em Marília, eu entrava em seu quarto e ela dizia: “Abre aquela gaveta ali da minha cômoda, que eu comprei uns perfumes para você”.
Mesmo depois de casada, eu tirava uma semana de férias para visita-la em Marília. Passava o tempo todo com ela na cama (ela tinha depressão, e ficava sempre deitada) e ficavamos conversando. Eu a fazia rir muito.
Ficava perguntando muitas coisas do passado, e ela sempre me comparava com uma amiga que ela teve em Caçapava , que fazia mil perguntas, que tinha o apelido de “Doca”. Toda vez que eu deitava com ela, ela ria e dizia: “Deita aí, Doca”. E ria muito. Quando ela ria, praticamente movia o corpo, mas a sua risada era delicada e baixinha.

Eu ficava alisando seus cabelos branquinhos, segurando na sua mão. Adorava beijar seu rostinho tão macio e cheiroso.




Quando meu avô morreu em 1979, em 1980 fui passar uma semana com ela. Ela dormia no quarto com uma enfermeira.
E esta vez que eu fui, como meu avô já havia morrido, dormi com ela na cama de casal. A noite ouvia ela falando baixinho.
E eu perguntava: “Vó, com quem você está falando?” e ela dizia: “Com o Juquita, ele está perguntando se eu tomei meu remédio”.

Eu morria de medo, pois sempre tive medo desta parte de “espíritos” (risos).
Então eu ouvi um barulho na janela, como se alguém estivesse trancando, e ela disse: “Não se preocupe filha, é seu avô que está checando se tudo está fechado”.
(E era mesmo o que ele fazia todas as noites...).
"O que vó, meu avôôôô? Ele morreu, Vó” E eu ficava apavorada embaixo das cobertas.

Os dois tinham uma ligação muito grande, tendo vivido juntos por 57 anos.
Misturando aqui um pouco minha avó com meu avô…. Ela tinha depressão, e meu avô, de manhã, sentava com ela no sofá, de mãos dadas, e lia o jornal “Diário Popular” (o jornal do Sangue). Então ele começava: “Matou a mãe com duas facadas!”. E ela: “Ah Juquita, não me lê essas coisas!” E ele: “É para distrair você meu Anjinho”.
Que distração, heim?

Anjinho para lá e para cá…. E assim iam os dois …

Uma coisa que sempre me comovia… Meu avô tomava Nescafé todos os dias depois do almoço. Era comum ele dizer: “Agora quero meu nesquinha”. ( a Nestlé vai ter que me pagar por essa propaganda!).
Então estávamos todos na mesa conversando, e meu avô fazia o “nesquinha” dele. Aí minha avó o seguia com o olhar e dizia baixinho para a gente: “Quer ver, ele sempre deixa o finzinho para mim!”. Lembro da minha angústia olhando meu avô com aquele medão dele esquecer dela. Mas era tão engraçado, ele tomava e automaticamente, mesmo conversando, parava no finzinho e dava a xícara para ela.

E ela olhava para a gente com aquele olhar orgulhoso dizendo: “Viu, não falei?” E eu respirava aliviada, porque ele dar a ela o finzinho do nesquinha era uma verdadeira prova de amor para a minha avó!
Havia pedido a minha irmã que escrevesse as lembranças que tinha da vovó, e engraçado que muitas bateram com as que escrevi em cima:

1) Eles se conheceram quando ela fazia Escola Normal, e ela sempre teve muito orgulho em dizer que ele deu muito em cima dela!
2) Teve seis filhos, por isso largou sua profissão, e uma coisa importante que minha irmã lembrou foi que ela alfabetizou todos nós.
3) Sempre protegia as filhas, porque o vovô era muito bravo, (isso me lembrou quando meu pai foi pedir minha mãe em casamento. Entrou na casa do meu avô, e ele de pijamas assistindo jogo, não deixou meu pai abrir a boca, e ele saiu sem conseguir falar nada – risos).
4) Minha irmã tem também a mesma lembrança que eu tenho, aquelas mãos macias e fininhas da vovó…
5) Ela lembrou de uma coisa que eu adorava: quando nós deitávamos na cama de casal em volta dela, ouvindo histórias, como se estivéssemos redescobrindo nossa identidade.
6) Minha irmã define seu porte como aristocrático (e era mesmo!).
7) Tinha olhos grandes e expressivos e um olhar sonhador de quem pairava meio acima das coisas.
8) Minha irmã também se lembra do perfume natural dela… e dos talquinhos que davam a ela aquele cheirinho especial.
Tanto eu como minha irmã pensamos que a vovó foi um símbolo de “mãezona, desistindo de sua profissão, para tomar conta de seus filhos, sempre ouvindo, entendendo e estando presente na vida dos filhos.
Muitas vezes em meio à dor, ela também ria e se esquecia um pouco de tudo, para lembrar-se de histórias engraçadas, com humor inteligente que muitas vezes nos fazia refletir.
E uma coisa que minha irmã disse e eu sempre senti…” deitar-se um pouco na sua grande cama de casal fazia muitas vezes a gente se sentir repousado e tranquilo sem medo do mundo…”

Uma lembrança que tenho da minha avó: tínhamos um cachorrinho quando morávamos em S. José chamado “Toquinho”. Um dia, eu tinha uns 13 anos, estava sentada no degrau da porta da cozinha com ele no colo, e ela me ouviu dizendo para ele: “Toquinho, voce não é cachorro, você é gente!” Ela se encantou com aquela frase.
Sempre me dizia assim: “Filha, repete aquilo que você disse do Toquinho”. E eu tinha que repetir a toda hora. E ela contava para todo mundo.

Tinha uma música que eu cantava, que me lembro um pedacinho… que ela pedia para eu cantar para ela quando ela estava deitada. . Chamava-se ÍNDIA” e vou transcrevê-la aqui:

ÍNDIA

Índia seus cabelos nos ombros caídos
Negros como a noite que não tem luar
Seus lábios de rosa para mim sorrindo
E a doce meiguice desse seu olhar
Índia da pele morena
Sua boca pequena eu quero beijar
Índia sangue tupy, tens o cheiro da flor
Vem que eu quero lhe dar, todo o meu grande amor
Quando eu for embora para bem distante
E chegar a hora de dizer adeus
Fica nos meus braços só mais um instante
Deixa os meus lábios se unirem aos teus
Índia levarei saudade da felicidade que você me deu
Índia a sua imagem sempre comigo vai
Dentro do meu coração
Flor do meu Paraguai



Lembro que quando eu cantava, ela ficava olhando para o teto com um olhar sonhador… e aí dizia de novo
baixinho: “Canta de novo, Inês?” (ela me chamava assim).
O que será que essa música a fazia lembrar ou sonhar?
Ah vozinha querida, você foi o protótipo da avó: doce, meiga, cheirosa, gostosa, como minha irmã bem lembrou, sentada naquela cadeira de balanço, naquele vai-e-vem, sempre com aquele sorriso terno e aqueles braços
sempre abertos para nós.
Que Deus a proteja sempre vozinha querida, e saiba que tenho lindas lembranças suas e a amo muito.


Mary Fioratti

21 janeiro 2008




Quando chegamos em Detroit em Outubro de 1990, tivemos o primeiro feriado, que foi o de Thanksgiving (Ação de Graças) no final de Novembro. Fomos então convidados para um jantar na casa de um Diretor da Valenite (onde o Roque trabalhava). Lembro que estava bastante frio, a Patti tinha um aninho e estávamos somente há um mês nos Estados Unidos.

O Diretor chamava-se John Henson, e morava em uma casa tipo rancho, que ficava um pouco longe da cidade.Uma das coisas meio chatas na adaptação a um outro país, é como se vestir nessas ocasiões. Eles têm uma linguagem própria deles, como "casual", mas esse "casual" pode às vezes ser mais sofisticado. Não me preocupei com roupa e me fantasiei de Mary. Lembro que vesti jeans, uma camisa, um casaquinho e mocassins. Lembro que estava frio, e nevava um pouco.

Lá chegamos e olhei as janelas por dentro todas iluminadas, com aquele "ar" de festa.Fomos muito bem recebidos pelo John, e tiramos os sapatos o que é o costume aqui, principalmente em tempo de inverno. Entramos naquela sala muito acolhedora, a lareira acesa, uma mesa cheia de salgadinhos, almofadas para todos os lados, e eu já fui sentando no carpete (risos). É assim que me sinto bem, quando consigo ser eu mesma. Assim como em casa, estamos sempre sentados no chão.

Havia também um Diretor de Recursos Humanos da Alemanha, simpaticíssimo! Quando encontramos pessoas assim, não importa nem a comunicação falada. Digo isso porque eu era iniciante tanto na cultura, como no falar. Mas era algo mesmo de alma. A conversação fluía tão fácil, e era como se os corações estivessem falando.

Havia uma parte mais elevada da sala, onde havia uma lareira. Em uma cadeira de balanço na frente da lareira, estava sentado o pai do John (dono da casa), com um copo na mão. Ele balançava naquela cadeira, olhando de longe a nossa reunião, com um olhar meio perdido, aquele tipo de olhar que os velhos têm, que parecem estar imersos em seu próprio mundo.

Começamos a tomar vinho, comer queijinhos diversos, pãezinhos, e a uma certa altura, como eu sempre faço nos lugares que vou, desliguei-me do tempo e me detive na beleza do cenário. Olhei aquele velho sentado em frente da lareira, olhei para a janela e vi a neve lá fora, (e tanto calor ali dentro...calor da lareira, calor humano), a música suave tocando no fundo... e de repente me senti fazendo parte de um filme americano. Não sei se algumas vezes vocês já se sentiram assim. Como se não fosse "vida real", como se eu estivesse apenas participando de um momento. Desliguei-me do cenário e parecia apenas uma expectadora.

Depois de conversarmos bastante, fomos levados para uma sala de jantar muito bonita, onde foi servido lasanha, peru, uma bela salada, com pão de alho. Foi um jantar nada convencional para um Thanksgiving, que normalmente é servido peru, batata doce assada, milho, purê de batatas com gravy (que é o molhinho que eles colocam em cima do peru).

Todos conversavam ao mesmo tempo, rindo alto, passando o pão e o vinho. A simpatia dos donos da casa era invejável. Lembro que a esposa do John, muito agradável, tinha uma risada que me lembrava o barulho de copos de cristal, é apenas uma analogia que às vezes fazemos. Essas coisas que a gente ouve e relaciona com algo sem saber o porquê. Depois do jantar, fomos para a sala onde foi servida uma torta de sobremesa, com sorvete e uvas.

Olhei para a sala, a lareira, e ainda balançando na cadeira, o velho segurava o seu copo, ouvindo aquela música que ecoava no ambiente, e olhando de longe, ele fazia parte daquele momento como algo histórico. Algo que eu senti que jamais esqueceria. Lembrava-me velhos filmes que eu havia assistido antes.

A Patti brincava no carpete, e a esposa do John trouxe um bichinho de pelúcia (um leãozinho) que era do filho dela quando era pequeno (e que por coincidência o filho tinha sido também adotado). Até hoje guardo aquele leãozinho, e toda vez que olho para ele, me vem essas lembranças. Nunca mais esquecerei este jantar. Foi um marco na nossa chegada nos Estados Unidos. Aquela sensação de aconchego, de carinho.

Não sei se eles ainda moram na mesma casa, mas muitas vezes penso em procurá-los, ou saber o endereço para escrever uma cartinha dizendo como foi importante para nós aquele dia. Com certeza nunca passou pela cabeça deles o impacto tão positivo que teve esse jantar em nossa chegada nos Estados Unidos.

Mary Fioratti

17 janeiro 2008







A SUA AUSENCIA


A sua ausência fica
como um copo de vinho vazio
sobre a mesa
como um pedaço de pão seco
difícil de ser engolido
parado na garganta
E desenha-se vagarosa
na chuva hoje que cai

Intermitente

´´´´´´´´´´
´´´´´´´´´´
´´´´´´´´´´

Nesse silêncio que entre nos
se agiganta
que incomoda
na falta do querer
do tentar
no engasgo do sentir
na mão que se estende
e fica no ar...
a chuva continua
a cair





A sua ausência
É um ritmo mudo sem canção
um suspirar calado
um soluço do coração








®Mary Fioratti

14 janeiro 2008



Toda vez que voce tiver duvida se esta agindo certo, focalize seu coração. Mesmo com a pitada de razão, tantas vezes necessária, o coração é a bussola mais certa para guiá-lo em todas suas decisoes.
Amor, alem de natural e espontaneo, é tambem um aprendizado. Um treinamento. A parte mais dificil nao é amar nossos amigos. Mas aceitar as pessoas que nao gostamos e tentar entende-las. Este é o maior desafio.
Tudo nessa vida passa. Mas o amor deve sempre ser cultivado. Ele é a mola do mundo. Quando colocamos amor em tudo que fazemos, a vida se torna tao simples é tao mais fácil.
E nessa jornada os amigos que nos acompanham tornam-se ferramentas imprescindiveis para que se abrandem nossos sofrimentos.



AMOR...PRESENTE CONTINUO


a vida é feita de momentos
de felicidades passageiras
e se tudo juntarmos
teremos fragmentos valiosos
e lembranças inesqueciveis
notamos que quase tudo nessa vida
é reciclável
certos momentos
alguns acontecimentos
a raiva
a frustração
o hoje, já quase faz parte
do amanhã
o ontem, já é um passado
muito longínquo
o amanha não chegou
mas quando chegar
já será o hoje
e em 24 horas
ele ficará na lembrança
assim é a vida
tudo se recicla
tudo passa
mas ha algo valioso
que não ha tempo que o recicle
são as amizades
os sentimentos verdadeiros
de ternura
são os gestos espontaneos
vindos do coracão
é o amor na sua inteira
plenitude
o amor não é passado
não é futuro
a vida passa
e com ela a importancia
de certos momentos
mas o amor ...
ele será sempre conjugado
em "presente continuo"

(eterno sentimento)




®Mary Fioratti

08 janeiro 2008






SEUS OLHARES




Quero hoje
com firma reconhecida
carimbo azul
assinatura com caneta tinteiro
o certificado
de que de hoje em diante
terei todos os seus olhares
somente para mim
posso dar-lhe a liberdade
de andar em todas as estradas
e ver todas as paisagens
de pisar no chão
de correr dentro pelas montanhas
de rir solto
olhar para o céu, beber água da chuva
mas os seus olhares
aqueles de desejo, de ternura
que marcam a minha pele
com suas iniciais
quero-os todos para mim
assine agora
o passaporte da sua liberdade
mas liberdade...condicional
porque olhares apaixonados
deitados na musica
gravados em lençóis de cetim
esses seus olhares
eu os quero todos
só para mim

®Mary Fioratti

28 dezembro 2007



PARA SE PENSAR NO ANO NOVO




Um novo ano chega, e tantos pensamentos, planos, surpresas, parece que ficamos com a boca aberta, meio incrédulos, nao acreditando que um ano ja se foi... Voa... e quando nos damos conta, ficaram tantos projetos para tras, tantas coisas que planejamos e acabamos nao fazendo.

Hoje, mais uma vez, eu quero falar dos velhos. Quando comecei esse projeto, meu marido me disse: "Mary, por que voce nao faz um trabalho comunitário com crianças? Eu a conheço, voce vai se envolver demais e se deprimir". Mas pensei que não, que gostaria mesmo de trabalhar com velhos. Criança e uma renovacão. Eles por si só se fazem felizes, pela própria natureza de ser. Eles ainda tem um mundo pela frente. Tem o "acreditar". Nao precisam viver de lembranças, mas vivem de projetos.

Os velhos ali estão, parece que estancados no leito da vida. Tem limitacoes no andar, no falar, no se mover. Alguns lutando com sequelas de derrame, outros, sem poder andar, alguns fora do mundo...

Quando entro naquele lugar e engraçado o que imediatamente sinto! Uma energia, uma forca, uma vontade de estender minha mao, de tocar pessoas. Mas o mais engraçado e que tudo isso parece que vem em dobro para mim de felicidade. Como explicar? Parece que estou fazendo algo para mim, e nao para os outros. E uma satisfacão plena.

Quando entrei hoje, fui visitar aquela senhora que contei no outro post, que o marido morreu de derrame. Quando ela me ve, ela já sorri. Ela disse hoje para mim que não quer dormir durante o dia, pois perde o sono a noite. Disse que estava com o corpo doendo. Sentei na cama, e fiquei a conversar. Ela falou das suas dores fisicas. Das suas limitacoes. Contou novamente como encontrou seu marido. Reviveu tudo... depois disse: "Nossa, acho que eu ja lhe contei!". Eu disse: "Contou sim, mas alguns pedacos eu nao conhecia". Entao ela continuou contando. Percebi como era importante para ela contar. Falar. Relembrar. Parece assim um balsamo para uma ferida. A lembranca. A certeza de que ela teve alguem que ela amou. Hoje ela me disse que o marido era um otimo cozinheiro. E que era muito bom para consertar coisas na casa, tinha uma "mão boa" (como dizem no Brasil).
Apontou uma foto que ela tem ao lado da cama e disse: "Eu gosto dessa foto porque ela e a ultima que tiramos juntos.



Falou que ela se sentia as vezes deprimida em pensar nele. E eu ensinei ela a mentalizar coisas boas, a pensar em tudo de bom que tem, de pensar nele com alegria (como e dificil falar uma coisa assim...).
Sai e ela estava melhor. Segurou minha mao. Nao sei porque a mão dela me lembrou a mao da minha avó. Branquinha, macia, com as unhas pintadas de cor-de-rosa.
Eu disse: "Sua mão está bonita!" Ela disse: "Minha filha veio aqui e fez minhas unhas".
Prometi a ela que voltaria na segunda-feira para ve-la.

Passei pelo quarto da Laura. A velhinha que apronta cada uma (risos!). Ela é uma gracinha.
Hoje ela me chamou, e disse: "Nossa! que bom que voce veio!". Depois eu disse para ela se poderia tirar uma foto. Ela disse: "Sim, mas antes quero falar uma coisa para você, e você vai repetir comigo". Falou com o dedo no meu nariz. Concordei. Risos.

Ela levantou um dedo e disse:

I AM HEALTHY (eu sou saudável)
I AM HAPPY (eu sou feliz)
I AM ON MY WAY TO HEAVEN (eu estou a caminho do Paraiso).

Repeti. Ela riu alto e disse: "Ela aprendeeeeeu!". E ria como uma criança.

Tirei a foto. E ela sorriu.



Passei pelo quarto do Norman Wise. Ele e aquele que foi Sargento na 2a. Guerra. Faz questao que eu passe no quarto dele, para conversar. Entusiasma-se a falar dos batalhoes, dos tiros... (e eu que nao gosto de filme de tiro, fico escutando...risos). E mostra as medalhas. E fala das armas. E da bandeira. Falei para ele que eu me emocionava muito com o Hino Americano.



Vejam a condecoracao na parede. Ele é um Livro de Histórias.

Sai do quarto do Norman e passei no quarto da Isabelle. Essa é bem mais lucida. Talvez por isso ela sofra mais por estar lá. Sinto que ela tem uma lucidez muito grande, e conversa sobre tudo. Hoje ela me disse que nao estava bem. E eu disse: "O que voce tem?" Ela respondeu: "Nao é nada fisico e sim psicologico mesmo". Noto que ela é bem diferente dos outros velhos.

Já era hora de ajudar no jantar. Como gosto de fazer isso!
Vou de mesa em mesa colocando o chá gelado, água, ou limonada. Café. Conversando com eles.
A Laura (a velhinha de chapéuzinho vermelho) ja estava sentada lá. E me abanou a mao!

Já decorei o nome das pessoas.

De repente vem o Warren. Esse e um velhinho que vem andando com muita dificuldade. Entao para, e fica olhando para a gente. E eu digo: "Quer sentar Warren?" Ele murmura: "Acho que quero"... risos.. Seguro-o pelo braco, e levo-o para a mesa. Ele se senta, e fica a olhar para baixo.
Hoje cortei toda comida para ele em pedacinhos. Ele come com a mao. Nao consegue comer com o garfo. Depois eu o vi colocando manteiga dentro do suco. E ria. Como uma crianca.

Passei pela mesa do cego. Essa é a minha preferida. Como gosto daquele homem! Gostaria de um dia gravar algo em Braille que pudesse dar para ele ler, o que penso dele! (hoje estava pensando na volta, vou descobrir como fazer isso). Ou vou fazer um poema para ele.
Hoje fui colocar a comida dele, e disse: "Bill, hoje tem macarrao, espinafre... e...." (nao consegui distinguir que tipo de carne era, estava empanada). Eu disse: "A carne nao sei, vou perguntar". Ele disse: "Nao, nao precisa. E comivel, nao e? Ta bom...nao precisa nao!".

Tem sempre um sorriso no rosto. Como se a vida para ele fosse a coisa mais linda do
mundo. Come com prazer. Como se para ele nao fosse importante enxergar. Mas sentir.
O engracado foi que no final do jantar houve um problema eletrico e apagou a luz. E alguem disse: "Esta escuro aqui".
Ele sorriu. Vi atraves da sombra da sala que ele sorria. Por um instante tentei ler seu pensamento. Escuro... aquele homem vive no escuro. E age como se estivesse em plena luz... Como se estivesse dizendo: "nao esta escuro. Vejam...a vida é
iluminada".

Corri tanto. Para lá e para cá . Agua, cafe, cha, sobremesa... leite, suco, canudinho, mais um garfo. "Corta para mim?" "Abre esse saquinho para mim por favor?" "Poderia trazer mais gelo?" "Nao tem mais manteiga?" "Voce tem outro pao?"
Acabou o cream para o cafe.

Ai a minha velhinha de chapéuzinho vermelho disse: "Voce pode me trazer a sobremesa?" Eu disse: "Laura voce tem que comer a comida primeiro". Ela ficou muito séria e disse: "Eu quero minha sobremesa senao vou jogar tudo no chao!" Risos
(Lembrou minha filha quando pequena...).

O que sao os velhos mais do que criancas grandes? Tao inseguros em seus passos e seus atos... Tao sensiveis.
Qualquer palavra para eles, e uma GRANDE PALAVRA... Qualquer gesto, UM GRANDE GESTO.

Queria pedir uma coisa a voces. Aqueles que pensam em fazer algo no ano de 2008 por alguem, facam por um velho.

Fala-se tanto em criancas...no entanto quantos velhos nos Asilos estao abandonados, esperando somente a morte, enquanto podemos dar a eles um pouco de vida?
Conversem com eles. Perguntem de sua vida.
Sempre há alguem a perguntar para uma crianca: "Qual o seu nome?"

Entao pergunte para um velho: "Como vai voce?" mas depois de perguntar , nao passe sem ao menos escutar a resposta. Pare e sente para escutar o que ele tem a dizer. Com certeza, a sua resposta nao sera resumida em uma so sentenca. Ele vai falar muito o que tem em seu coraçao.
E voce vai ficar surpreso de quantas coisas vai descobrir naquela conversa. E vai sentir um sentimento de alegria interior, que vai surpreende-lo muito!


ERA POUCO





Era pouco
muito pouco o que aquele velho queria
em seus olhos pedintes
refletia o desejo de um entendimento
sem palavras
e sua boca tremula
talvez nao conseguisse murmurar
palavras com algum significado
mas pedia com seu silencio
um olhar de entendimento

Era pouco
muito pouco o que seu corpo fragil
podia lhe dar
passos inseguros com medo da estrada
inseguranca de vida
pedia com seu silencio
que a mao fosse estendida
o coracao pudesse entender
a mensagem muda
de seus labios cerrados

Eram poucas
suas lembrancas colecionadas
em cima de um criado-mudo
um porta-retratos com foto dos filhos
quando eram pequeninos
um velho radinho de pilha
um copo d’agua, uma pilula
uma saudade guardada
numa velha carteira de couro
no bolso de sua calca

Seu olhar de paisagem
fitava um canto qualquer
prescrutando uma saudade
em sua memoria vivida
recordava-se de enderecos
ruas, de calcadas antigas
e como uma crianca inocente
perdia-se nas lembrancas
Confundindo-se entre o passado
e o presente

Era pouco
o que pude dar a aquele homem
diante da riqueza de sua vida
ele havia passado por tantos pedacos
colecionado tantas dores
cada ruga de sua face
contava uma historia em silencio vivida
e fiquei ali a olhar aquele velho
a fitar sua figura fragil e delicada
plantada no fim da estrada da vida...

FELIZ ANO NOVO A TODOS VOCES!


®Mary Fioratti

Peço que me perdoem a falta de acentuacao! As vezes nao tenho paciencia para acentuar tudo, já que meu teclado nao tem acentos,e preciso recorrer a um "copiar" e "colar"...
Essa poesia eu fiz pensando no meu pai.

25 dezembro 2007




(Foto tirada pela Patti quando chegamos da missa)



NOITE DE NATAL




Hoje fomos a missa as 11 da noite. Foi uma missa maravilhosa.
Chegamos as 10:00 para pegar um lugar, pois o Coral comeca a cantar musicas de Natal as 10:30.
Tambem houve o "Coral dos Sinos", varias pessoas tocando sinos, formando musicas. Muito bonito.
No final, cantamos todos "NOITE FELIZ" (HOLY NIGHT) é realmente de arrepiar toda aquela multidao cantando.

Esse é o presépio de nossa Igreja:



Ja passa da uma e meia da manhã.


Tenham todos voces um FELIZ NATAL!


®Mary Fioratti

24 dezembro 2007



FELIZ NATAL




Meus amigos queridos:

Quero desejar a voces um NATAL MARAVILHOSO cheio de paz, amor e alegrias.
Obrigada por estarem aqui, durante o ano todo, lendo tudo que escrevo, e deixando-me
repartir minha vida com voces.

Que hoje possamos agradecer tudo que temos, e sermos infinitamente gratos a nossa SAUDE, essa joia preciosa que Deus nos deu!

Hoje vou no Asilo dos Velhinhos a tarde, ver aqueles que nao tem familia e ajudar a servir o jantar. Acho que isso vai me fazer sentir muito bem no Natal, pensando que posso dar um pouco de mim, assim como Jesus deu TANTO dele para nos.

A noite iremos a missa, as 11:00 horas. Mas as 10:30 comeca o Coral de Natal com musicas maravilhosas cantadas. Nesse coral ha muitas pessoas velhas, alias, de todas as idades, muito emocionante.

Sentados em baixo de nossa arvore, eu e o Roque rezamos todos os dias a partir de primeiro de dezembro ate o dia de Natal. Colocamos nosso Menino Jesus embaixo da arvore, e cada dia um faz uma oracao, e nela envolvemos todos nossos amigos e familiares e agradecemos por tudo que recebemos no ano.

E voces estarao em meu pensamento!


Um beijo carinhoso

FELIZ NATAL!

Mary Fioratti

PS: Na parede do lado da minha arvore ha um Cristo talhado na madeira que nos foi presenteado pelo irmao do Roque em nosso casamento. Com o sol, ficou parecendo somente os contornos dele. Vejam que assim mesmo ficou lindo!

20 dezembro 2007



NOSSO ANIVERSÁRIO DE CASAMENTO




Hoje é nosso aniversario de casamento. Casamo-nos em 21 de dezembro de 1979 na Capela do Centro Técnico de Aeronáutica (C.T.A.) em São José dos Campos.



Ja contei aqui como conheci o Roque, mas vou "recontar", para quem nao sabe.

Em 1974 ele comecou a dar aulas de Ingles no Colegio Particular Synesio Martins, onde eu fazia o terceiro ano de Secretariado. Na epoca ele trabalhava na Kodak como Supervisor de Cargos e Salarios. E dava aulas a noite.
Todas as meninas ficaram interessadas naquele professor novinho (na epoca, 24 anos), com um fusquinha vermelho envenenado (risos), calca boca-de-sino justinha, cabelos compridos e com uma personalidade muito determinada.

Na epoca eu tinha outro namorado, e quantas aulas de Ingles matei para namorar... Na verdade eu nao tinha dificuldade nenhuma, pois fazia um curso de Ingles, na Cultura Inglesa.

De repente me vi interessada por ele. Acho que era aquela personalidade de "durao". Nao dava bola para nenhuma menina.

Comecamos a "paquerar" (nossa que palavra antiga), nos ultimos meses antes da Formatura. Ele me pediu se eu poderia ajuda-lo a passar as notas na Caderneta de escola. E eu ficava depois da aula (ja interessada, claro) com ele na classe passando notas, mas tudo muito serio, passando notas mesmo....

No final do ano, ficamos juntos no jantar de formatura, e ele me levou em casa no seu fusquinha envenenado.
Pediu se podia me ligar. Eu disse, claro que sim. Pediu meu numero. E eu disse: "Olha, eu trabalho na Sociedade Construtora Aeronautica Neiva. O numero esta na lista".
Na verdade achei que ele nao ia me ligar.
No dia seguinte avisei a telefonista que se um cara chamado Roque me ligasse, que ela me achasse onde eu estivesse.
Um dia fui para S.Paulo, e ele ligou. E a telefonista entao disse: "Nossa! Ela estava esperando muito sua ligacao".
Ara...me entregou....risos..

Comecamos a namorar em fevereiro de 1975 no Carnaval. Namoramos quase cinco anos, e casamos em 1979.

Quem ve o Roque, e o conhece, dificil liga-lo comigo. Somos opostos.

Ele: calmo, equilibrado, tem muito cuidado com suas palavras, nunca toma uma decisao imediatamente, pensa no problema em diversos prismas, tem uma paciencia muito grande com tudo, fala devagar.

Eu: Impaciente, desiquilibrada, falo e depois penso, tomo decisoes imediatas (e me arrependo um minuto depois), penso num problema de um lado só, sou impaciente, falo muito depressa.

Lembro o dia que minha filha bateu o carro. Ela me ligou gritando no telefone (nem conseguia entende-la). Aí antes de sair de casa liguei para o Roque chorando: "A Patti sofreu um acidenteeeeee de carro"!!" Ele todo calmo, disse: "Voce sabe se ela se machucou?" (num mesmo tom de voz). E eu: "Nao seeeeiiiiiiii" E ele: "Mary, calma, vá indo com cuidado, encontro voces lá".

O que sempre me atraiu no Roque foi sua inteligencia. Aquela inteligência "quieta", sem alardes. Humilde, escuta mais do que fala.
Foi o primeiro aluno das duas Faculdades que fez. Sempre faz tudo com extrema dedicacao.
Só nao gosta muito de poesias. Lê algumas minhas. Ele nao sonha muito. Vive na realidade. Eu estou sempre sonhando...

Hoje fazemos vinte e oito anos de casados.
Falei assim: "Nossa parece que esses 28 anos passaram tao depressa, voce nao acha?"
Ele disse: "Verdade! parecem 28 minutos".. e completou falando baixinho: "debaixo d'água"...

O humor sempre foi muito importante para a sobrevivência de nosso casamento.

Parabéns para nós!

®Mary Fioratti