
(Transformei essa minha foto de hoje com tons antigos para combinar com o texto)
HISTÓRIAS DE AMOR E VIDA NO NATAL
A época de Natal é de fraternidade. E de reflexão. E aqui eu quero repartir com vocês, histórias de amor. Histórias que um dia poderão acontecer com um de nós.
Estar voluntariado nesse "Asilo" (chamemos assim, embora a realidade dos EUA seja muito diferente da realidade do Brasil), me faz ver coisas alem do que vejo.
Aqui é muito comum as pessoas velhas que possuem um imóvel, uma casa por exemplo, entregarem essa casa para o Asilo, como pagamento de sua estada. E é isso que muitos fazem, pois o custo é muito alto. Varia de $2,500 a $4,000 dólares/mês.
Ontem mais uma vez fui fazer o meu serviço voluntário. Vou dizer a vocês, que com a idade que estou, e contando toda minha vida profissional e tudo que fiz, nada me deu na vida mais satisfação, do que isso que estou fazendo. Difícil explicar a sensação de ajudar pessoas sem ganhar nada.
Sabe, isso que estou falando pode ate parecer "piegas" ou que estou fazendo "propaganda de mim mesma". Não e não.
Não estou recebendo em dinheiro, mas em experiencia de vida. E tambem a oportunidade de refletir muito.
Aquele lugar é um mundo de histórias, de vidas que tem um valor imensurável para quem participa dele.
Quando chego, me entregam um papel com a lista das pessoas que tenho que visitar. Existem as alas "A", "B" e "C", então lá vou eu a procurar meus pacientes.
Existe uma senhora que fui da primeira vez, que seu marido morreu de derrame cerebral em Agosto. Ela se sente muito sozinha, e gosta de conversar, e mostrar na parede as fotografias de seus sete filhos, a casa que o marido construiu, o carro que eles tinham. Há uma foto dela com ele na parede, bem perto dela, que foi tirada uma semana antes dele morrer.
Ontem pela segunda vez fui visita-la, e ela ficou feliz ao me ver. Conversamos bastante, (deixo-a falar mais sobre o que quiser falar). Ela já e bem velha, mas com traços bonitos.
Ontem, olhei na parede do outro lado da sua cama e vi sua fotografia com o marido, quando eles se conheceram. Achei tão bonita, que pedi para tirar uma foto dessa fotografia: 
Eles se conheceram e ela tinha 16 anos e ele 18. Diz ela que foi um amor a primeira vista, e que nunca mais se separaram (foram casados 68 anos).
Ela fala e se emociona. E eu me emociono.
Sai de lá e fui visitar o Norman. Ele é um velhinho muito simpático. Foi Sargento na 2a. Guerra Mundial e com muito orgulho, conta todas as histórias. O companheiro de quarto dele parece estar meio "cansado" de ouvir essas histórias (risos), pois quando ele fala, liga a TV...
Esse homem tem um orgulho tão grande de ter ido para a guerra. Tem uma cômoda do lado da cama, cheia de fotografias. Ele me deu uma foto dele com o Presidente Ronald Reagan, os dois se cumprimentando. Tem medalhas, panfletos, tudo que vocês possam imaginar.
Pedi autorização dele, para tirar a foto de um cachorro de pelúcia que a bisneta dele presenteou-o. Uma especie de almofada.
Vejam que bonito: 
As quatro horas fui ajudar o Toni do Restaurante a servir o jantar. Como gosto de fazer isso!
Pedi a semana passada um mapa das mesas, e decorei os nomes. Assim fica mais fácil de servir os pratos. O Toni os prepara e eu vou nas mesas levando, e também um carrinho com as bebidas, chã gelado ou água gelada.
Cada um tem uma dieta. Ontem fui levar na mesa do Norman, as sobremesas. E na mesa dele, tem uma velhinha chamada Isabella.
Ela não pode comer doce por ser diabética. Então ela me disse: "Olha, me de uma torta de maca hoje, por favor. Eu não quero comer essa fruta". O Norman pegou o pratinho e disse: "Não Isabella, você não pode, você e diabética".
Nossa! A velhinha levantou, e parecia que ia ter um ataque! Risos. Colocou o dedo na cara dele e disse: "Olha aqui, eu tive um marido durante 45 anos e não quero ter um outro nesse lugar aqui que fique podando o que posso ou não fazer!!!"
Todos olharam... e riram. Depois soube que ele gosta dela, mas ela não quer nada com ele.
Viram? O amor existe em todas as idades...
Há uma velhinha (essa eu adoro) que vem sempre com um chapeuzinho vermelhinho, mas ela e uma graça! Mas a gente pode notar que ela tem um temperamento que não e fácil!
Quer sempre duas sobremesas, esconde um pedaço de torta do lado da cadeira e diz que não ganhou torta (risos).
Ela me lembra sempre uma velhinha que faz parte das grandes piadas de velhos aqui nos EUA, a Maxine:
Sabe, são todos umas crianças-grandes.
Tenho muita pena de um velhinho que vem todas as tardes para jantar com sua mulher. Ela teve derrame cerebral e ele da comida em sua boca. Ontem, quando fui levar o prato dela, os dois estavam dormindo, ela com a cabeça no seu ombro e eles de mãos dadas.
Mas de tudo, o que mais me impressiona e um velho cego. Ele e o único que sempre elogia a comida. Quando coloco seu prato, ele diz: "O que tem hoje?" Então eu falo, e ele diz: "Nossa, esta parecendo uma delicia". "O cheiro esta tão bom".
Coloco café e ele diz: "Muito obrigada, o café esta delicioso".
Ontem ele me perguntou: "Esta nevando hoje?" Eu disse: "Não, esta apenas muito frio".
Ele disse: "Adoro esse tempo de frio, essa neve, e com a neve, tudo fica tão bonito"
Naquele momento senti uma coisa aqui dentro de mim, inexplicável. Vejam, aquele cego "VIA" a paisagem que nos, que enxergamos com dois olhos, talvez não vejamos com o coração que ele vê.
Talvez um dia ela já tenha visto, e guarde essa imagem. Talvez, ele nunca tenha enxergado, e imagine essa imagem.
O engraçado e que vou chegando perto da mesa e ele diz: "Olá, obrigada por nos servir". Ele pressente a presença, uma coisa admirável.
Meus amigos... quero dizer a vocês que essa tem sido uma grande experiência para mim. Gostaria que um dia vocês pudessem experimentar esse sentimento.
Quantas mãos se estendem nesse caminho a procura de uma palavra. Nos temos tanto! E eles, na reta final de suas vidas, tem tão pouco! E valorizam tanto tudo que tem.
Termino aqui com uma propaganda que tinha no Brasil ha muitos anos atras.
Aparecia o pai com o filho pequeno, e ele dizia: "Come, meu filho!" E o menino fechava a boca e não queria comer.
Depois, mais tarde, o filho já adolescente, o pai viu o viu fumando. Arrancou o cigarro da mão do filho e disse: "Não fume! Isso faz mal para a saúde!".
Então a propaganda mostra muitos anos depois, o pai velhinho e o menino um homem, o velho sentado na mesa, e ele dizendo: "Come pai! você precisa comer". E o pai fechando a boca, não querendo comer.
Depois o filho vê o pai escondido fumando na área, vai lá tira o cigarro da mão do pai: "Pai, cigarro faz mal!".
E isso me faz pensar: o que é a vida senão um reciclar?
®Mary Fioratti

