11 agosto 2007


























MEU PAI




Meu querido Pai:
Ja se passa tanto tempo, no entanto sua lembrança sempre está entre uma coisa e outra que penso, ou uma frase que falo.
Tenho uma marca em mim que e a sua marca: minhas mãos. Quando olhava suas mãos, sempre as comparava com as minhas. Retrato fiel.
A coisa que mais lembro de voce é a sua força. O mundo podia estar caindo, mas você sempre acreditava que amanhã seria um novo dia.
Nada o abatia.
A doença de minha mae que se arrastou por tantos anos, você sempre tinha uma grande paciencia e compreensão.
Sua energia era eletrizante! Hoje, quando faco mil coisas ao mesmo tempo, e nem de dormir eu gosto, lembro de você.
E uma coisa que sempre admirei: sempre que você nos via tristes, ou mesmo minha mãe, voce sempre tinha um jeito de nos fazer sorrir.
Sua mão era aberta para todos que o procuravam. Você não media esforcos para encher nossa geladeira com tudo que gostavamos. De nos mimar e dar para a gente, tudo que voce podia dar.
Fecho os olhos e ouco seu assobio no portão, entrando com os bracos cheios de compras.
Você com o avental na cozinha preparando aquela deliciosa sopa de legumes, ou aquelas suas saladinhas de ultima hora que eram um sucesso!


























Nossa Loja "CHARME COSMETICOS”. Chegavamos de manhã cedinho, eu e você. Enquanto você passava pano no chão, eu tirava o pó das prateleiras, arrumava o dinheiro do caixa. Ligavamos a musica FM, e lá ficávamos a preparar nosso dia.

Mesmo quando você se sentia aborrecido, nunca demonstrava. Sempre nos passava uma forca enorme, como se nada o abatesse.

Quando moravamos em Ubatuba, lembro que uma vez cortou o pé na praia com uma garrafa quebrada. Com o pé cheio de sangue, você ria, e corria para o mar... e eu olhava espantada, enquanto voce dizia: “Isso não é nada minha filha!”.
E isso voce dizia toda vez que acontecia algo. Voce detestava nos ver sofrer.

Nao gostava que perguntassemos se estava doente. As vezes pegava uma gripe, e ficavamos todos quietos sem nem perguntar: “Pai o sr esta com gripe?” Porque sua resposta sempre era: “Eu nao tenho nada! Nao me perguntem se estou doente”.
Ate o fim da vida tomou o seu banho sozinho, todas as manhãs. Saia do banheiro sem camisa com a toalha nas costas. Gostava de sentar numa cadeira no quintal para tomar sol (eu sei por quem puxei por amar tanto sol!).

Uma lembranca muito doce que eu tenho: a ultima vez que fui para o Brasil, um ano antes de você morrer, eu cheguei em casa e voce estava dormindo. Fiquei conversando com minha irmã no quarto. Quando voce levantou, veio andando do seu quarto devagarinho. A hora que me viu, seu rosto se iluminou, comecou a sorrir e a balbuciar palavras apressadamente... dizendo: “Russa!” como me chamava.
Sabe quando voce dá um brinquedo a uma crianca e ela olha para voce com um sorriso deslumbrado? Assim você me olhou.

Sempre tenho a lembranca de você lavando e passando sua roupa. Colocando-as no guarda-roupa todas certinhas. Era super organizado.

Todos os Natais ganhavamos um “penhoir”...(risos). Aqueles que a gente usa em casa. Isso porque nos andavamos muito a vontade, com pouca roupa, e você se implicava muito com isso.

Anos a fio no Cine Palacio, como Gerente, voce subia e descia aquelas escadas tão agilmente. Seu escritorio era de vidro, no topo da escada. Entao eu me lembro que quando passava em frente do cinema e o via lá em cima, eu sentia algo me aquecer por dentro, pensando: “aquele é o meu pai”.
Todo mundo conhecia o Sr. Martins.

Um fato engracado do cinema que voce contou. Um dia voce lá em cima trabalhando, o telefone toca la em baixo e voce pede para o faxineiro do cinema atender. Entao ele atende e perguntam o filme que estava passando.
Meu pai disse lá de cima: “Tao jovem e tao má!” E faxineiro disse: “Don Jorge e São Thomás”...
Rimos muito. Sempre riamos com suas historias.

Lembro tambem um dia que no meio da noite ligaram do cinema. Era um rapaz que havia dormido durante o filme, e acordou de madrugada sozinho no cinema (risos). Ele acordou apavorado. Ligou para tudo quanto foi lugar, ate que informaram o numero do telefone de nossa casa.
Quando fui chamá-lo, você ficou tao bravo! Saiu vestindo as calças pela sala e xingando.... hahahahaha! Pai, voce era tao engracado!


























Nas minhas crises de bronquite tinha a maior paciencia. Eu atrás do carro e você me levando para o Hospital, dizia: “Calma minha filha, estamos quase chegando”. E eu quase sem respirar.

Um dia chegamos no “Pronval” (Emergencia Medica) e a moca da frente disse: “O sr. tem que preencher uns dados dela”. Meu pai me pegou pelo braco, foi entrando pelo corredor do hospital. A moca gritava: “O sr. nao pode entrar ai!” Ele fingiu nem escutar, viu uma porta aberta, entrou e me sentou na frente da mesa de um medico. O medico olhou tao espantado para meu pai. E ele disse: “Minha filha esta passando mal e o sr. vai atende-la já!”
Risos. Esse era meu pai.

Quando meu avô inocentemente perdeu todo o dinheiro que tinha emprestando a um sobrinho (e o sobrinho fugiu da cidade), lembro tao bem que acordei a noite, e meu avô, naquele tempo em casa, estava chorando na cozinha. Meu pai levantou, e sentou-se ao seu lado. Meu avô chorava e meu pai ali sentado, nao dizia nada, mas compartilhava da sua dor.
Depois meu pai foi atras do que podia conseguir para meu avô, e acabou conseguindo a escritura de um terreno que esse sobrinho tinha em Caraguatatuba.
Assim era meu pai. Um coracao maior que ele.

Das ultimas vezes que fui ao Brasil, lembro tao bem de manhã ele arrumando sua cama. Era uma cama de casal. Ele esticava um pedaco do lado direito, vinha andando devagarzinho, fazendo a volta na cama toda, arrastando seu chinelo, e no quarto o radinho ligado. Ele tinha 82 anos, e arrumava sua cama toda manhã.
Depois ia tomar banho, passava sem camisa com sua toalha pendurada nas costas. Sempre dizia que o banho de manhã lhe dava energia.

Pai, pai...como queria hoje ver voce. Dar-lhe um abraco apertado, de encontro ao meu coração. Passar a mão no seu rosto, nos seus cabelos brancos, nas suas mãos tao minhas. Sentir o cheiro da sua colonia.
Escutar suas historias. Ver sua caixinha de fotografias.

Sei que voce continua ao meu lado. Sei que olha por mim.
Embora sempre agradeça em minhas preces, quero agradecer hoje por voce ter me dado o que foi de mais importante: A VIDA!

Peço sua benção pai, e beijo suas mãos.

Sua filha, Russa

E abaixo coloco uma poesia que minha irma fez para voce (minha irmã cuidou do meu pai até ele morrer).



(FOTO DE MINHA IRMA COM MEU PAI EM UM NATAL PASSADO, NA CASA DO MEU IRMAO, ONDE FAZIAMOS O AMIGO SECRETO. NESSA FOTO MINHA IRMA ERA A AMIGA SECRETA DO MEU PAI.
QUE TEMPOS FELIZES!)

* * * * *

UM REENCONTRO...

Hoje, quando vi teu rosto
chamando-me, ao amanhecer,
e entendi porque a Misteriosa Vida
colocou-nos lado a lado...

Parece não existir poesia
em nosso cotidiano
feito de tantas lutas,
de problemas corriqueiros,
mas quero dizer que te amo muito
mesmo que a dor da incompreensão
às vezes dilacere nossa alma...
Quero dizer que em teus lentos,
silenciosos passos,
em tuas palavras breves,objetivas
em teu mundo fechado
quase sempre tão difícil de entrar,
vou encontrando aos poucos,
minhas lembranças, meu presente,
minhas respostas..
Quero dizer que dia-após-dia
reconheço-me em teus traços,
e enxergo-me através de ti...
Quero dizer que amo a vida que me destes
e este sangue, correndo em minhas veias
e também, todos os pensamentos
que até hoje a mim dedicastes
e a tua presença em minha vida
que é sempre força,
mesmo invertendo-se os papéis.

Se hoje és criança,
aprendo contigo a paciência,
se hoje, dependes de ajuda,
aprendo contigo a proteger
se és hoje mais confuso e triste,
busco em mim alguma razão
para fazer-te alegre...

E mesmo errando tantas vezes
repetimos,juntos, dia-a-dia,
a lição do reencontro...

Envio-te um beijo, meu pai.


Maria Lúcia


14 comentários:

Bia disse...

Que linda homenagem prestaste ao teu saudoso pai, minha doce amiga!

Com toda a certeza, de onde estiver, ele sentiu o carinho e o amor com que o presenteaste com essas lembranças tão doces.

Mas acredito que o presente maior tenha sido tu quem recebeste. A ternura das tuas palavras calaram tão lindas no nosso coração de ouvinte/leitor, que fico imaginando a forma terna como sairam da tua alma. Sei que foram um verdadeiro presente pra ti essas recordações.

Acredite "Russa", teu pai viu e ouviu tua homenagem, e sentiu tuas mãos afagando-lhe o rosto e os cabelos, e a ternura que sentiu certamente foi revertida em bênçãos para o teu coração.

Obrigada pela partilha, minha doce amiga das palavras mágicas que caem direto no coração da gente.

Sei que nesse momento mimosos anjos estão a recolher teus sonhos para depositar no bondoso coração do Pai.

Ficam pétalas de perfumadas flores e um beijo para enfeitar teu domingo que desejo seja de paz e alegria.

Zé Carlos disse...

Russa um beijo pro cê outro pro Sr. Martins.... é o que dá só hoje........

Zé Carlos disse...

Mary querida não se esqueça de dizer à Maria Lúcia que ela é muito linda...... além de poeta maravilhosa.
Bjs daqui de Marília..... Zé

Anônimo disse...

Mana é isso mesmo aí, tudo que vc escreveu. Assim como eu tinha mais afinidade com o temperamento da mamãe, você sempre teve traços (físicos e de temperamento muito semelhantes ao papai). Mas posso dizer que nós duas herdamos essa força de vontade que ele tinha (ou ainda tem, pois sabemos que nada termina com morte do corpo físico).
Como te escrevi, vc já me fez chorar logo de manhã com a beleza de seu escrito.Uma homenagem maravilhosa,e se me permite, assino embaixo.

Zé Carlos, obrigada, mas lembre-se que essa foto é de uns quinze anos atrás, mais ou menos...:-). Um abraço, tudo de bom para você e sua família.

Beijos, querida mana e que tenham um ótimo dia.
Acho que hoje não é Dia dos Pais aí, não é? Assim mesmo, envio um grande abraço ao Roque, que é um paizão.

Beatriz Prestes disse...

Mary....amiga querida, irmã do meu coração.
Hoje, muitas coisas assolam meu coração, muitas lágrimas emargam minha garganta, e turvam meus olhos.
Tua publicação jorrou sentimento absoluto. Como se estivesse esperando o momento para gritar ao mundo, um amor tão forte e vivo!
Eu me emociono todas as vezes que aqui estou....acompanhando teus tantos sentimentos. Mas neste dia especial, minha emoção foi um pouco além.
Obrigada minha amiga, por este compartilhar.
Amo você
Bea

Jéssica disse...

Ah, doce Mary, vc me fez chorar mais ainda, pois tb já não tenho o meu paizinho. Ele se faz presente em pensamento, sua 'presença' ainda é muito forte no meio da família, especialmente no meu coração. Tb postei sobre papai, falei pouquíssimas coisas sobre o grande homem que ele foi e ainda é pra mim. Um beijo, minha linda... e que Deus console os nossos corações. Feliz domingo*.*

Musician disse...

Que lembranças boas, lembranças que ficam para toda a vida...que beleza e simpatia o teu pai transmite! E tudo isso também está em ti :)
Gostei querida!
Um beijo doce*

Chave da Poesia disse...

Mary querida,
Que bom podermos sentir saudades, o melhor bálsamo para relembrar alguém que a gente teve e tanto amou...
Um beijo, Syl

Amaral disse...

Mais uma entusiastica viagem pelo teu baú de belas recordações...
Tal como sempre, a franqueza e a expontaneidade em todas as memórias mais ou menos recentes, e acima de tudo, o doce carinho que se sente em cada frase...

Obrigado, minha amiga, pelo comentário que me deixaste.
Não mereço tal, porque sou um humano com todas as suas fraquezas que, apenas, tento combater...

Saramar disse...

Mary, Mary,
se soubesse o quanto chorei lendo este maravilhoso relato de amor e ainda mais o lindo poema da sua irmã.
Eu nem li nada sobre o dia dos pais. Ainda estou muito sensível e não contenho as lágrimas de tanta saudade.
Obrigada pela beleza das suas palavras que me inspiraram e deram coragem para escrever sobre o meu pai.

beijos, beijos, também para sua irmã Poeta.

Bia disse...

Que as ondas do mar estejam embalando teu sonho mais bonito... que as borboletas conduzam teu olhar por verdes campos... que as estrelas enfeitem teu céu interior com o brilho mais intenso... e que o vento te leve meu carinho num doce beijo aconchegado em mimosas pétalas.

Ricardo Rayol disse...

Mary, uma das mais lindas homenagens que andei lendo por aí.

Menina do Rio disse...

Nossa... Fiquei com um nó na garganta!

Não fique triste nas despedidas, pois ela é necessária, antes do próximo encontro. E o reencontro depois de momentos, ou de vidas, é certo para os que são amigos. (Richard Bach - Ilusões)

ALF disse...

que profundo Mary, que profusão de sentimentos, que amor. Gostoso de vir aqui, debruçar-me em suas belissimas palavras, amorosas alando de um pai que foi imensamente amoroso.
fico emocionado com cada palavra sua e com toda essa intensidade transbordade no texto.

Lindo, muito lindo Mary
^^
=**

Beijos